15 janeiro 2010

bobagens

Depois que Clara surgiu em minha vida, tudo mudou. Ela é o centro do meu mundo. Ela é o sol e eu sou um planeta ao redor dela. E me sinto feliz assim. Feliz não, eu me sinto completamente iluminada, amada e cheia de amor para distribuir mundo afora.

Nós brincamos muito, rimos muito, brigamos muito, sempre juntas, eu sempre tentando ajudá-la a descobrir o mundo.

Agora ela está numa fase típica para a idade dela: o humor varia muito, os escândalos são freqüentes, mas descobertas diárias a fazem crescer.

Ontem no supermercado ela queria chips. Passamos obrigatoriamente pela prateleira com guloseimas e eu não coloquei chips no carrinho. Ela danou-se a chorar e fez o maior escândalo. Todo mundo me olhava, mas eu ria e dizia: ela quer comer chips. E as pessoas riam, tentavam brincar com ela, mas não teve estória que a acalmasse. Passou a tarde quase toda de birra e só melhorou quando fomos brincar na casa de uma amiguinha dela.

Hoje ela acordou sorridente, me deu um beijo e disse que me amava. Mas à tarde, quando eu falei que nós iríamos à farmácia e depois passaríamos no supermercado para comprar pão, ela simplesmente disse: E chips também, mamãe!

Eu ri, expliquei que eu faria pipoca em casa e que amanhã nós vamos a uma festa e ela vai comer muitas guloseimas (incluindo brigadeiros, beijinhos, coxinhas, quibes, bolivianos - né dinda!). Consegui que ela aceitasse a explicação e abri mão de três ursinhos de goma, que foram comidos com muito gosto (obrigada Priscila pelos ursinhos), para mimá-la um pouco.

E assim nós vamos acertando, errando, rindo, brigando, brincando e nos amando. Mesmo ela sendo meu sol, meu centro, meu mundo, é preciso ter limites.

14 janeiro 2010

Haiti

Estou rezando!

de Caetano e Gil:

Haiti

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui