Não estou falando de amigos em si, e sim de cognatos.
Cognatos são palavras que possuem o mesmo radical em diferentes idiomas, por possuírem a mesma origem. Portanto se assemelham, tanto na escrita como em seu significado.
Os falsos cognatos são palavras que, apesar de semelhantes em duas línguas, possuem sentidos totalmente diferentes.
Alguns falsos cognatos em alemão-portugês:
absolvieren: terminar os estudos
brav: bom, honesto
Kompaß: bússola
Konkurs: falência, bancarrota
Krimi: romance ou filme policial
Dose: lata de conservas
Patience: paciência (jogo de cartas)
Praxis: consultório
Tapete = papel de parede
Paneele = madeira de forracao das paredes
Zigarre: charuto
E o mais engraçado deles é a palavra Kuh, que é vaca! É dose ouvir as crianças passeando nos campos e exclamando: Mama, die Kuh, Mama (Mama, a vaca, mama).
D. fala inglês e veio morar na Alemanha (desculpe-me amiga, mas tenho que contar essa). Daí ela resolveu fazer uma feijoada e foi à vizinha convidá-la. Lá vai ela, toda linda, achando que alemão e inglês por serem línguas germânicas são similares!
D. para o marido: Bemzinho, como é feijão em inglês?
O marido para D: é bean, fala bien.
Daí desce D. até o apartamento da vizinha e pergunta: Möchtest Du Biene mit uns essen? (Você quer comer abelha conosco?)
A vizinha, com cara de espanto: Biene? (Abelha?)
D.: Ja, Biene, typisch brasilianisch (Sim, abelha, tipicamente brasileira)
A vizinha, extremamente simpática e muito curiosa no que diz respeito à culinária brasileira: OK! (Ela devia estar pensando: "esse povo meio índio deve comer abelha, vou ver se é bom")
Daí está a família toda sentada, à mesa uma feijoada completa e a vizinha: Ah, Bohnen!
e D: Bohnen? Bemzinho, o que é Bohnen em português?
23 junho 2006
20 junho 2006
aprendendo coisas novas em 1986
Às vezes as pessoas me perguntam:
- Como è que você aprendeu alemão?
E eu respondo:
- Passei 5 meses penando numa escola de línguas em regime de internato. Quase entrei em depressão, mas parece que se aprende uma língua por osmose. Você escuta e não entende nada. Depois o ouvido se acostuma e daí você passa a distinguir as palavras.
O que antes parecia: virraissénsie vira Wie heißen Sie? (ví rrái ssen zi), que quer dizer "como você se chama".
E perdendo a vergonha, começamos a responder. Depois de algum tempo estamos falando, rindo, sonhando e até mesmo brigando na nova língua. Sem pensar e sem refletir, tudo flui.
Quer aprender uma língua, seja "sem vergonha". Sem vergonha de falar errado, de falar besteiras. Eu mesma já passei por várias situações constrangedoras e por outras muito engraçadas. O importante é saber rir de si próprio e entender que a vida é uma escola, onde estamos sempre aprendendo algo novo.
Em 1986 (é eu cheguei à Alemanha em setembro de 1986 - nossa quanto tempo!) não existia aqui a variedade de produtos e serviços que hoje existem. Lembro que no Brasil, perfume francês era coisa de gente rica. A globalização nem verbete era. Estudantes estrangeiros eram poucos morando aqui, brasileiros então eram quase inexistentes na área. E em Dortmund, no vale do Ruhr, área de mineração de carvão e de metalurgia, quase só moravam os trabalhadores das minas e das siderúrgicas. Pessoas às vezes bem legais, mas de baixo nível educacional. Quando na rua eu perguntava a alguém: <<>> a resposta era <<>> e só. Nada além do a little bit. Então eu tinha que me virar, saía com dicionário de alemão-português e rezava para não comprar nada errado, escolher a comida certa, etc e tal.
Num dia de novembro, fui com Ana, também bolsista e minha conterrânea de Alagoinhas, ao supermercado e vimos laranjas entre as frutas e verduras. Lembro-me, como se fosse ontem, da redinha com seis (6) laranjas minúsculas que custava DM 3,99, o equivalente a 1,99 Euros, mas cujo valor na época equivalia a uma entrada de cinema. Ficamos alegres em encontrar laranjas após dois meses de Alemanha e resolvemos comprar uma redinha. Ao chegar à escola, como boa baiana eu descasquei a laranja, cortei-a ao meio e fiquei espantada pois a mesma era rajada de vermelho.

Ana: - Ma, não chupa. Esta laranja está estragada. Ou a planta foi contaminada por Tchernobyl. Ou é pesticida, que os europeus usam muito.
Eu – após testar com a pontinha da língua: Mas Ana, tem gosto normal de laranja! Só a aparência é estranha.
Ana: Não, vamos mostrar para o paulista, vai ver que é uma variedade diferente. Porém eu acho que é pesticida, radioatividade, tudo junto.
Eu: Então vamos lá perguntar para João.
Nós duas: Jonny-boy, você já viu uma laranja assim como essa?
João, o paulista, que já tinha vindo várias vezes à Europa, homem culto, viajado e rico: - Não, nunca. Isso deve ser radioatividade, joga fora que isso mata.
Eu: Vamos ver se há outra igual?
Cortei a laranja e lá estava ela, vermelha por dentro, rajada como se gotas de sangue tivessem se misturado aos gomos. Joguei fora.
Na segunda-feira, fomos Ana e eu falar com nosso tutor.
Ana e eu – quase gritando, reclamando, pois 3,99 Marcos era muito dinheiro: Michael, precisamos ir com você ao supermercado, pois compramos laranjas e elas estao estragadas. Queremos que você vá reclamar pois nosso alemão não dá para tanto.
Michael: Então traz uma aqui para eu ver se está mesmo estragada.
Ana e eu: Não Michael, estão estragadas, contaminadas com pesticida e/ou radioatividade. Elas são vermelhas por dentro.
Michael, já sem paciência, pois para alemão paciência é raridade: Marcia, traz uma para mim!
Eu subo ao 4o andar, onde ficava meu quarto, pego uma laranja e dou a Michael, que a descasca, corta e diz:
Das ist eine BLUT ORANGE (isso é uma laranja sangüinea)! Vem da Itália e é assim mesmo.
Oh tabaroice, meu! Mas quem é que na época já sabia que existia na Europa, principalmente na Espanha e na Itália, uma outra variedade de laranja, conhecida como laranja sangüínea? Seu nome deve-se ao seu suco, que tem uma pigmentação vermelha chamada antocianina. Esta variedade possui um teor de ferro e de ácido fólico superior ao das outras laranjas.
Vivendo e aprendendo.
- Como è que você aprendeu alemão?
E eu respondo:
- Passei 5 meses penando numa escola de línguas em regime de internato. Quase entrei em depressão, mas parece que se aprende uma língua por osmose. Você escuta e não entende nada. Depois o ouvido se acostuma e daí você passa a distinguir as palavras.
O que antes parecia: virraissénsie vira Wie heißen Sie? (ví rrái ssen zi), que quer dizer "como você se chama".
E perdendo a vergonha, começamos a responder. Depois de algum tempo estamos falando, rindo, sonhando e até mesmo brigando na nova língua. Sem pensar e sem refletir, tudo flui.
Quer aprender uma língua, seja "sem vergonha". Sem vergonha de falar errado, de falar besteiras. Eu mesma já passei por várias situações constrangedoras e por outras muito engraçadas. O importante é saber rir de si próprio e entender que a vida é uma escola, onde estamos sempre aprendendo algo novo.
Em 1986 (é eu cheguei à Alemanha em setembro de 1986 - nossa quanto tempo!) não existia aqui a variedade de produtos e serviços que hoje existem. Lembro que no Brasil, perfume francês era coisa de gente rica. A globalização nem verbete era. Estudantes estrangeiros eram poucos morando aqui, brasileiros então eram quase inexistentes na área. E em Dortmund, no vale do Ruhr, área de mineração de carvão e de metalurgia, quase só moravam os trabalhadores das minas e das siderúrgicas. Pessoas às vezes bem legais, mas de baixo nível educacional. Quando na rua eu perguntava a alguém: <<>> a resposta era <<>> e só. Nada além do a little bit. Então eu tinha que me virar, saía com dicionário de alemão-português e rezava para não comprar nada errado, escolher a comida certa, etc e tal.
Num dia de novembro, fui com Ana, também bolsista e minha conterrânea de Alagoinhas, ao supermercado e vimos laranjas entre as frutas e verduras. Lembro-me, como se fosse ontem, da redinha com seis (6) laranjas minúsculas que custava DM 3,99, o equivalente a 1,99 Euros, mas cujo valor na época equivalia a uma entrada de cinema. Ficamos alegres em encontrar laranjas após dois meses de Alemanha e resolvemos comprar uma redinha. Ao chegar à escola, como boa baiana eu descasquei a laranja, cortei-a ao meio e fiquei espantada pois a mesma era rajada de vermelho.

Ana: - Ma, não chupa. Esta laranja está estragada. Ou a planta foi contaminada por Tchernobyl. Ou é pesticida, que os europeus usam muito.
Eu – após testar com a pontinha da língua: Mas Ana, tem gosto normal de laranja! Só a aparência é estranha.
Ana: Não, vamos mostrar para o paulista, vai ver que é uma variedade diferente. Porém eu acho que é pesticida, radioatividade, tudo junto.
Eu: Então vamos lá perguntar para João.
Nós duas: Jonny-boy, você já viu uma laranja assim como essa?
João, o paulista, que já tinha vindo várias vezes à Europa, homem culto, viajado e rico: - Não, nunca. Isso deve ser radioatividade, joga fora que isso mata.
Eu: Vamos ver se há outra igual?
Cortei a laranja e lá estava ela, vermelha por dentro, rajada como se gotas de sangue tivessem se misturado aos gomos. Joguei fora.
Na segunda-feira, fomos Ana e eu falar com nosso tutor.
Ana e eu – quase gritando, reclamando, pois 3,99 Marcos era muito dinheiro: Michael, precisamos ir com você ao supermercado, pois compramos laranjas e elas estao estragadas. Queremos que você vá reclamar pois nosso alemão não dá para tanto.
Michael: Então traz uma aqui para eu ver se está mesmo estragada.
Ana e eu: Não Michael, estão estragadas, contaminadas com pesticida e/ou radioatividade. Elas são vermelhas por dentro.
Michael, já sem paciência, pois para alemão paciência é raridade: Marcia, traz uma para mim!
Eu subo ao 4o andar, onde ficava meu quarto, pego uma laranja e dou a Michael, que a descasca, corta e diz:
Das ist eine BLUT ORANGE (isso é uma laranja sangüinea)! Vem da Itália e é assim mesmo.
Oh tabaroice, meu! Mas quem é que na época já sabia que existia na Europa, principalmente na Espanha e na Itália, uma outra variedade de laranja, conhecida como laranja sangüínea? Seu nome deve-se ao seu suco, que tem uma pigmentação vermelha chamada antocianina. Esta variedade possui um teor de ferro e de ácido fólico superior ao das outras laranjas.
Vivendo e aprendendo.
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