05 agosto 2010

palmadas

calma, eu nunca apanhei e nem bati em Clara...

é que eu li um texto no blog da Lu Brasil, escrito por uma xará minha, Marcia, e resolvi publicar aqui.

E antes que alguém comente, pense um pouco e também me responda: Como explicar a uma criança que um adulto pode bater nela, mas ela não pode bater no colega/irmão?

...

5/05/2005 19:38:04
Um tapinha não doi…
…desde que não seja na sua bundinha!
Por muito tempo eu também pensava assim, que um tapinha às vezes é bem corretivo. Que
criança precisa. Eu também levava em conta a minha própria educação pessoal como algo
comum e aceitável ("não é porque apanhei que sou psicopata", "não é um tapa que torna alguém
agressivo" etc). Mas mudei de idéia depois de muito ler (e believe me, não foram poucos os
livros que li), participar de forums e assistir a muitos programas desse tipo.
Muitos pais explicam antes de bater, na hora que batem e depois que batem. A criança chora, se
cala e pára de fazer o que estava fazendo antes. Efetivo? Pode até ser. Ideal? Eu acho que não.
Com essa disciplina nenhuma dessas famílias conseguem ter o controle de suas crianças. A
criança continua mau-comportada, os pais estressadíssimos e a casa cheia de tensão.
Por exemplo: um escândalo comum é quando uma criança está brincando num playground e não
quer ir embora. Na disciplina de tapas, os pais chamam uma vez, duas, três. A criança ignora.
Os pais tentam carrega-la. Ela esperneia, chora e solta dos braços deles. E corre. Os pais correm
atrás, já putos da vida. Alcançam a criança e dão bronca. A criança se esgoela e chuta a perna
do pai/mãe. O pai/mãe então dá-lhe um tapa na bunda, fim da estória. É sempre mais fácil bater.
Plaft. Você fez isso, isso e isso e agora você vai ver. Plaft. Criança chorando, pais emputecidos.
Na disciplina sem violência, antes de sair de casa a criança recebe informações de quanto tempo
vai ficar no playground e o que vai fazer quando sair de lá (um lanche, alimentar os patos
apostar corrida com o pai, etc.). Já quase na hora de ir embora, um dos pais avisa a criança:
"daqui dez minutos a gente vai embora, o que você vai fazer nos seus dez minutos?". Passados
os dez minutos um dos pais sugere: "vamos ver se você consegue sair do playground e tocar na
minha mão em 20 segundos? Eu aposto que você não consegue ser tão rápido! 20, 19, 18, 17…"
Criança satisfeita, pais menos estressados. Mais trabalhoso? Sem dúvida. Mas quem disse que ia
ser fácil?
As crianças geralmente apresentam os mesmos problemas: escândalos em supermercados,
recusa ao fazer suas refeições, dramas na hora de ir dormir, brigas na hora de trocar de roupa,
violência, gritos, mordidas, tapas, cuspes, chutes e palavrões. E o mais impressionante, ao meu
ver, é que quem precisa mudar de comportamento são os pais, não os pequenos. E em todos os
casos, quando os pais mudam a atitude, os filhos mudam de forma espantosa. Sim, exatamente,
a culpa é dos pais, sinto muito. Para os psicólogos, não existe essa coisa de "ah, minha filha é
geniosa mesmo, não posso fazer nada". Pode sim. Pode fazer muito.
Uma das primeiras regras é de nunca, jamais bater em sua criança. A não ser que você queira ter
um mini pitbull em casa que vai aprender a bater nos irmãos, nos colegas, na professora e em
tudo mais que estiver pela frente. Geralmente os pais que batem (com um tapa na bunda ou
espancam até sangrar), querem simplesmente "mostrar quem manda" ou então "mostrar que a
criança merece ser punida". Mas no fundo, a grande verdade é que em cada tapa os pais estão
dizendo "eu não sei mais o que fazer e estou frustrada e com raiva, então eu bato em você
porque você provocou esse sentimento de impotência em mim que eu não suporto admitir". E
para a criança agredida, a mensagem é "se tudo mais falhar, parta para a violência física".
A partir dessa primeira regra, o resto é disciplina em si. Quase todas as crianças problemáticas
estão gritando a todo pulmão o mesmo: me dê limites, me dê atenção, me dê seu amor. Elas
precisam desses três aspectos, em doses iguais. Dê muito limite e pouco amor e elas se
revoltam. Dê muita atenção e nenhum limite ("ai filhinho, não fura o olhinho da mamãe não, tá
bom..?") e elas se revoltam. Dê limite, dê amor, mas nunca tenha tempo pra brincar e elas se
revoltam.
E para dar conta desse delicado equilíbrio, os pais precisam ser determinados em manter suas atitudes sempre coerentes: punir sem violência física ou voz alterada quando o comportamento for inaceitável, elogiar efusivamente quando o comportamento for bom e verbalizar "eu amo você" sempre que seu coração disser.
Para punir sem violência existem um bilhão de recursos em milhares de livros de disciplina,
cada família tem que escolher o que melhor funciona para si. Mas e quanto aos outros dois
aspectos? Muitos pais dizem "ah ele sabe que eu o amo, não preciso dizer" e não conseguem pôr
esse sentimento em palavras. Surprise, surprise mas a criança não, não sabia que os pais a
amavam e por isso se mostrava tão violenta. Ou então, frente ao bom comportamento, muitos
não se dão ao trabalho de elogiar, como se fosse a obrigação mesmo da criança se comportar.
"Olha, olha, comi essa cenoura", dizia a menina, cheia de orgulho. "Mmf, termina o resto,
anda", foi a resposta que recebeu. Por que diabos eu iria comer outra cenoura??
Isso é só um exemplo de uma situação banal. Há obviamente muitos outros problemas além de
deixar um playground. E para cada caso, para cada criança, há opções de disciplina que são
efetivas e controladoras. Basta pesquisar, basta ler, basta manter a cabeça um pouco mais além
dos nossos próprios conceitos arraigados.
O mundo deu muitas voltas desde a nossa geração e muito mais voltas desde a geração anterior.
Antes era comum ajoelhar no milho. Antes era comum sentar na frente da classe com um
chapéu em formato de cone escrito "burro". Antes era comum levar reguada da professora.
Antes era normal o marido bater na mulher para mantê-la nos eixos. "Ah, mas é diferente".
Diferente como? Desde a criança que vai parar no pronto socorro com o nariz quebrado até a
criança que ficou com a bunda rosada por causa de um tapinha, todas elas têm o mesmo em
comum: o medo. Medo da dor, medo de apanhar de novo, medo dos pais não a amarem mais,
medo.
Sinto muito, mas não concordo com esse discurso de que a criança que apanha e recebe
explicações de porquê está apanhando vai entender e aprender. Se ela tem capacidade de
entender e aprender, então por que não explicar, com voz firme, com bronca, com castigos
(sentar sozinha, confiscar brinquedo, tirar privilégios), ao invés de bater? Aonde foi que eu
perdi a explicação que prega que sentir dor diz mais do que palavras e atitudes?
Quanto ao que as crianças se tornam depois que crescem é uma outra história. Crescemos e nos
tornamos adultos com diferentes atitudes, diferentes traumas e diferentes formas de pensar
levando em conta um mundo de diferentes aspectos do nosso ambiente e acontecimentos da
nossa vida. Mas pensar que a criança que apanha não vai carregar nenhum trauma por causa
disso — porque afinal é tão normal! — na sua vida adulta é muito errado. Há traumas em
menores escalas, mais brandas, mais escondidas, mais enterradas lá no fundo do seu
subconsciente. Medo, dor, estarrecimento e humilhação são grandes ferramentas para
desequlibrar qualquer auto-estima. Não é porque isso não aconteceu com você que apanhou e é
super normal e confiante em si que não vai acontecer com quem você bate. Porque você não é a
outra pessoa e não sabe nem nunca vai saber como a mente do agredido funciona ou vai
funcionar.
Anyway, tudo isso que eu escrevi aqui não é para agredir ninguém e nem fazer ninguém se
sentir culpado por ter eventualmente usado a disciplina da chinelada. Cada um faz o que é o
melhor para a sua família, levando em conta a informação que tem ou teve em seu tempo. Cada
um escolhe como educar e disciplinar seus filhos, netos, sobrinhos, afilhados e eu não tenho
absolutamente nada com isso. Como você foi educado ou como educou seus filhos já é passado,
ninguém pode mudar. Mas há muitas famílias que podem se beneficiar com essas novas formas
disciplinares. Há muitas famílias que precisam desesperadamente de ajuda de terapeutas. Há
muitas famílias que simplesmente não querem dar tapa, mas querem crianças disciplinadas. E
por que não darmos algum apoio? Por que não aceitar o novo? Por que não incentivar essas
famílias a ao menos tentarem? Por que em tudo temos que ser "contra ou a favor"? Por que não
podemos simplesmente entender que há outros meios atualmente?
A minha intenção aqui, é chamar a atenção para algo que está mudando. Ao invés de rebater
tudo o que escrevi aqui diarréicamente, tentem ao menos refletir sobre o assunto, tentem ao
menos ler os links , ler os conselhos dos especialistas, os casos de cada familia. Antes de abrir a
janela de comentários, pare e pense se realmente você já estudou os dois lados para defender
suas idéias ou se sua opinião é apenas baseada na sua experiência, que sinto dizer, mas pode
estar um pouco defasada.
Conhecimento nunca é em vão. Converse nos fórums, fale com especialistas, conheça as
famílias, assista aos programas. Deixe de lado a idéia de que terapeutas são idiotas que só
querem ganhar dinheiro. Deixe de lado a idéia de que o que você acredita é sempre o certo.
Deixe de lado a rigidez da opinião popular. Porque o mundo muda, as idéias surgem, o ser
humano evolui.
Eu talvez não sobreviva para ver isso, mas quero um mundo mais consciente de suas atitudes e conseqüências, um mundo que respeite os limites e direitos de cada ser vivo, um mundo onde levantar a mão para bater seja só para fazer pão. Eu devo mesmo estar atirando uma só estrela- do-mar de volta no oceano. Mas mesmo assim. Ainda assim.

7 comentários:

Anunciação disse...

É isso.Eu posso dizer que sim porque experimentei os dois lados;e todas as vezes que bati foi porque estava com raiva,nervosa,irritada,impotente.A paz,a colaboração,o aprendizado,a harmonia,só viriam com a mudança de atitude minha,não deles.

bibi move disse...

oh yes! acho que a mídia brasileira perdeu uma oportunidade imensa em disseminar opiniões como essa, para contrapor o conhecimento popular e o preguiçoso: "minha mãe me bateu e eu estou aqui, formada (?), então, acho que uma palmadinha eucativa seja eficaz."
affffff

Mariana disse...

Muito interessante este texto. Adorei!!! Eu fui educada na base da palmada e as vezes da chinelada ou cintada. O que meus pais conseguiram foi que eu morresse de medo deles. Me esforço ao máximo para que meus filhos não sintam medo de mim e sim consigam ouvir o que eu falo. Confesso que já dei algumas palmadas sim e sofri muito com elas. Primeiro porque perdi a paciencia e a razão, alem de ter passado a mensagem errada. Aqui em casa é mais do que claro para mim e para o Sergio que nós somos o termometro da casa: qd estamos bem todos ficam bem, quando estamos com algum problema a casa vira um furacão.
As crianças percebem tudo o que acontece o tempo todo e reagem a isso. Cabe a nós adultos, perceber o que estamos fazendo de errado para a criança ter determinado comportamento. É extremamente trabalhoso e cansativo, mas o resultado é muito positivo.

kalina morena disse...

Marcia,

to impressionada com esse texto claro, serio e verdadeiro.
acredito que todos os pais deveriam ter a chance de ler um material assim, que fala de uma mae que leu e entender novas formas de criar gente como gente, com respeito e amor.
to com vontade de reproduzir esse post no meu blog.
abraco e tudo de bom,
Kalina

Tatiana disse...

Oi Marcia,
Nossa...quem já não deu ou pensou em dar umas boas palmadinhas naquela hora de extrema irritação...é...o negocio é complicado.
Agora, desde que comecei a usar o método 1-2-3 tudo mudou na minha vida!!!
É um livro que se chama 1-2-3 MAGIC, uma maravilha!!!
Super recomendo para mudar o estado de impotência que sentimos na hora da frustração.
Beijos,Tati.

Tati.

gaby braun disse...

Voce esta certissima, os pais nao querem ter trabalho ppara educar os filhos, pois estao tambem muito preocupados com eles mesmos, neste nossa sociedade que sempre nos diz que estamos perdendo alguma coisa e temos que nos manter jovens e dinamicos e realizados e etc... e aí nao sobra muito tempo para se educar um filho de maneira adequada. Eu apanhei muito por nada quando pequena e sei que isto nao é nada bom... Gera medos, insegurancas... Voce está certa, educar dá trabalho, mas se voce nao quer ter trabalho, nao ponha filhos no mundo...

Alessandra Mosquera disse...

Olá Marcia! Descobri seu blog pela minha amiga Taís e adorei este post. Penso exatamente como a autora, tenho exemplo na família de que bater não serve pra nada e ainda pode piorar. Tenho um cachorro e educo ele pelo método do reforço positivo, que serve para crianças tb e penso que é a melhor forma de educar, vc tem que pensar e usar a inteligência, dá trabalho, mas os resultados são muito melhores e mais efetivos! Um abraço de Madri