Às vezes as pessoas me perguntam:
- Como è que você aprendeu alemão?
E eu respondo:
- Passei 5 meses penando numa escola de línguas em regime de internato. Quase entrei em depressão, mas parece que se aprende uma língua por osmose. Você escuta e não entende nada. Depois o ouvido se acostuma e daí você passa a distinguir as palavras.
O que antes parecia: virraissénsie vira Wie heißen Sie? (ví rrái ssen zi), que quer dizer "como você se chama".
E perdendo a vergonha, começamos a responder. Depois de algum tempo estamos falando, rindo, sonhando e até mesmo brigando na nova língua. Sem pensar e sem refletir, tudo flui.
Quer aprender uma língua, seja "sem vergonha". Sem vergonha de falar errado, de falar besteiras. Eu mesma já passei por várias situações constrangedoras e por outras muito engraçadas. O importante é saber rir de si próprio e entender que a vida é uma escola, onde estamos sempre aprendendo algo novo.
Em 1986 (é eu cheguei à Alemanha em setembro de 1986 - nossa quanto tempo!) não existia aqui a variedade de produtos e serviços que hoje existem. Lembro que no Brasil, perfume francês era coisa de gente rica. A globalização nem verbete era. Estudantes estrangeiros eram poucos morando aqui, brasileiros então eram quase inexistentes na área. E em Dortmund, no vale do Ruhr, área de mineração de carvão e de metalurgia, quase só moravam os trabalhadores das minas e das siderúrgicas. Pessoas às vezes bem legais, mas de baixo nível educacional. Quando na rua eu perguntava a alguém: <<>> a resposta era <<>> e só. Nada além do a little bit. Então eu tinha que me virar, saía com dicionário de alemão-português e rezava para não comprar nada errado, escolher a comida certa, etc e tal.
Num dia de novembro, fui com Ana, também bolsista e minha conterrânea de Alagoinhas, ao supermercado e vimos laranjas entre as frutas e verduras. Lembro-me, como se fosse ontem, da redinha com seis (6) laranjas minúsculas que custava DM 3,99, o equivalente a 1,99 Euros, mas cujo valor na época equivalia a uma entrada de cinema. Ficamos alegres em encontrar laranjas após dois meses de Alemanha e resolvemos comprar uma redinha. Ao chegar à escola, como boa baiana eu descasquei a laranja, cortei-a ao meio e fiquei espantada pois a mesma era rajada de vermelho.

Ana: - Ma, não chupa. Esta laranja está estragada. Ou a planta foi contaminada por Tchernobyl. Ou é pesticida, que os europeus usam muito.
Eu – após testar com a pontinha da língua: Mas Ana, tem gosto normal de laranja! Só a aparência é estranha.
Ana: Não, vamos mostrar para o paulista, vai ver que é uma variedade diferente. Porém eu acho que é pesticida, radioatividade, tudo junto.
Eu: Então vamos lá perguntar para João.
Nós duas: Jonny-boy, você já viu uma laranja assim como essa?
João, o paulista, que já tinha vindo várias vezes à Europa, homem culto, viajado e rico: - Não, nunca. Isso deve ser radioatividade, joga fora que isso mata.
Eu: Vamos ver se há outra igual?
Cortei a laranja e lá estava ela, vermelha por dentro, rajada como se gotas de sangue tivessem se misturado aos gomos. Joguei fora.
Na segunda-feira, fomos Ana e eu falar com nosso tutor.
Ana e eu – quase gritando, reclamando, pois 3,99 Marcos era muito dinheiro: Michael, precisamos ir com você ao supermercado, pois compramos laranjas e elas estao estragadas. Queremos que você vá reclamar pois nosso alemão não dá para tanto.
Michael: Então traz uma aqui para eu ver se está mesmo estragada.
Ana e eu: Não Michael, estão estragadas, contaminadas com pesticida e/ou radioatividade. Elas são vermelhas por dentro.
Michael, já sem paciência, pois para alemão paciência é raridade: Marcia, traz uma para mim!
Eu subo ao 4o andar, onde ficava meu quarto, pego uma laranja e dou a Michael, que a descasca, corta e diz:
Das ist eine BLUT ORANGE (isso é uma laranja sangüinea)! Vem da Itália e é assim mesmo.
Oh tabaroice, meu! Mas quem é que na época já sabia que existia na Europa, principalmente na Espanha e na Itália, uma outra variedade de laranja, conhecida como laranja sangüínea? Seu nome deve-se ao seu suco, que tem uma pigmentação vermelha chamada antocianina. Esta variedade possui um teor de ferro e de ácido fólico superior ao das outras laranjas.
Vivendo e aprendendo.