03 abril 2008

Eu sempre me considerei uma pessoa antenada, ligada à vida. Gosto de ser cuidadosa com tudo, do meu corpo ao meio-ambiente. Muitas vezes peco por excesso de cuidados. Outras vezes perco o controle e acabo falando demais.

Mas eu seria outra pessoa, se continuasse sempre a mesma, meu forte é minha capacidade de rir de mim mesma, aceitar que errei, pedir perdão e tentar mudar esse comportamento adiante.

Tem sido uma tarefa árdua me manter de boca fechada e ser somente ouvinte-observadora. É muito descaso para meu coração de mãe aguentar e eu conseguir me segurar sem abrir a boca, sem dizer nada.

Tenho uma amiga, jovem, com curso superior, bem informada e muito divertida. Ela é casada com um médico e tem três filhos. Quando eu a conheci, ela estava grávida do segundo e eu pensei que a menina dela andava meio desleixada por que ela estava grávida e vivia cansada.

Daí nasceu o segundo filho. E o menino andava parecendo um esmolé, com o nariz cheio de remela. A menina, mais velha, continuava meio descabeladinha. E eu pensei que ela tinha dois filhos, pais longe, sogros longe, marido fazendo residência e ela sozinha, então não dava pra deixá-los "engomadinhos".

Há algum tempo nasceu o terceiro. O coitado do menino chegou aqui em casa com o rosto todo sujo de comida, os olhos remelados, o nariz tão melecado que devia estar obstruindo sua respiração e vestido pior do que um retirante nordestino ao chegar em sumpaolo.

Mas isso é só aparência, diriam alguns. Minha mãe me dizia que por ser pobre eu não precisava andar suja. Lembro-me dela falando: sua roupa pode estar remendada, mas tem que estar sempre limpa. Tudo bem, não precisa vestir Gucci e nem Versace no neném, mas dá pra passar uma água depois da comida? Dá pra colocar um soro no nariz? Os outros dois já estão grandes e a menina até ajuda a tomar conta do irmãozinho, pois eu mesma já a vi chegar da escola e ir direto brincar com o irmão.

O pior de tudo é vê-la cuidado do menino, ou melhor, descuidando. Ela chegou, colocou-o num tapete no meio da sala e sentou-se para tomar café. Após uns quinze minutos o menino começou a chorar. Quem se mexeu para acalentá-lo? Eu, é claro. O comentário dela foi: ele precisa aprender a ficar sozinho!

OK, com 5 meses e meio e ele ainda não fica sozinho? Ah, tá - pensei eu. E ouvi o cúmulo dos absurdos:

Eu estou até pensando em deixá-lo chorar durante a noite, pois assim ele aprenderá a não mamar mais depois das 11 horas. Eu fiz o mesmo com a menina e ela chorou uma noite inteira, mas depois deste episódio ela passou a dormir sem acordar. Eu não sei se é por isso que minha filha não tem muita confiança em mim.

Eu respirei fundo, contei até dez, mas precisei contar outra vez e abstive-me de fazer qualquer comentário. Doeu, mas o filho é dela, ela faz o que ela achar melhor.

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