12 setembro 2009

a comida vira... e vai embora

Todas as vezes que Clara deixava um pedacinho de fruta ou algo gostoso no prato e ficava enrolando ao invés de comer, invariavelmente o pai ou eu pegávamos. Se depois de algum tempo ela percebesse e perguntasse: cade 'xyz' do meu prato? Eu respondia: está na minha barriga (ou do papai) virando cocô.

Um dia na casa dos avós, o avô fez café para todos e perguntou à esposa: cadê os biscoitos? E Clarinha respondeu: Na barriga de Clara virando cocô. Ela tinha comido um biscoito alguns minutos antes.

Essa conversa foi o meio que eu achei para explicar a Clara o que era xixi e cocô. Eu mostrei que a comida era mordida, mastigada e engolida. Deixei ela sentir a comida descendo na garganta, achei um livro onde tinha um desenho do aparelho digestivo, mostrei-lhe e descrevi com palavras simples o que acontecia.

Depois de algum tempo eu comecei a dar tchauzinho pro vaso sanitário antes de dar descarga. E ela adorou isso, principalmente quando eu a segurava e ela podia apertar o botão de descarga.

Eu comprei um "diminuidor de vaso" (como chama isso heim?) e ela adorou sentar como "gente grande", mas nada fazia. Daí eu passei a deixá-la sem fraldas, mas ela fazia xixi no chão, no jardim, na escada e eu limpando, sem dizer nada além de "isso é xixi, se você quiser, você pode ir ao banheiro igual a mamãe e papai". Visitando a Dani G em uma de suas breves visitas ao Reino Belga, eu recebi uma dica preciosa e passei a usá-la: colocar um pedacinho de pano dentro da fralda descartável, para que Clara percebesse quando fazia xixi ou cocô.

Algumas semanas depois o pai foi com ela a uma loja e comprou dois pinicos, um para cada andar da casa (imaginei-me correndo escada acima e abaixo para evitar maiores transtornos, sonhei caindo e quebrando perna, tive pesadelos com rios de xixi no sofá de penas, etc e tal, por isso os 2).

E há mais ou menos 1 semana estamos sem acidentes. Para sair nós usamos fralda e às vezes ela prefere para fazer algo na fralda. É a escolha dela, e nós respeitamos isso. Na escolinha ela vai de fralda, mas já pediu à "professora" para usar o toilette, pois eles daqueles tem tamanho mirim.

Mas a cara de orgulho dela ao usar o pinico com sucesso é algo indescritível. Ela faz o que quer fazer, levanta a tampa do vaso, joga o conteúdo do pinico dentro, tampa o vaso, sobe na tampa, dá descarga e depois me chama: mamãe, preciso lavar as mãos e limpar o bumbum e o pinico. Tudo isso com um sorriso do tamanho do mundo estampado no rostinho.

Será que as fraldas realmente já não farão parte do meu lar? Que alegria!!!! Que orgulho!!! Eu quero chorar, pois minha filha está ficando indepente demais!!! Cadê meu bebê, heim????

E como escreveu Gibran:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

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@Dani G.: Obrigada por me ensinar a fazer a cestinha! Obrigada a sua vó, que deve ter lhe passado o dom de cozinhar. Você sabe que tem todo o meu agradecimento pelas dicas valiosas que me dás! Sempre! E foi você que me disse para colocar um pedacinho de pano dentro da fralda, para que ela percebesse o que fazia. Estamos a caminho da liberdade!

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